Posts Tagged ‘World’

A África em Londres

E o cara que matou o soldado a machetada em Londres?!?!?! É a globalização. Tão globalizando as técnicas de guerra africanas. É o karma histórico: a Grã-Bretanha explorou a África por séculos, sua terra, sua população, seus mineirais, foi importantíssima na venda de escravos. Agora toma, Grã-Bretanha, é outra mão da mesma rua. Vai e volta. E eu, que adoro a Grã-Bretanha, de Gales a Escócia, que moraria em Londres sem pestanejar, acho justo. Não que o cara tenha sido morto a machetadas no meio da rua, mas que a rua tenha duas mãos. A história não tem lógica nem é previsível; às vezes é óbvia, às vezes caótica. Tem sempre razões, inúmeras razões, e causas, quase sempre vistas apenas em retrospecto. Somos sujeitos e objetos dela, e observadores. Agora vendo a africanização de Londres, vejo o grande movimento da história, aquele que sempre me fascina.

 

23

05 2013

Trivial variado de domingo

1682915-inline-inline-1-world-map-population-in-the-circle

Tem mais gente vivendo dentro desse círculo do que fora dele. Impressionante.

tumblr_mmz0jlENqK1qzupj0o1_1280

Adorei. Eu pratico tsundoku religiosamente. E viva o tsundoku.

Eu não sou irlandesa. Aliás, eu não devo ter nem uma gota de sangue irlandês. Nada. Nadinha. Sou judia do leste europeu, provavelmente uma mistura de judeus alemães que foram expulsos para a Polônia nos séculos 13 ou 16, e de judeus do Império Otomano que moravam onde hoje é a Moldova. Bom, isso tudo prá dizer que quando escuto alguém cantando Danny Boy como deve ser, lentamente, com drama, eu viro irlandesa. Começo a sofrer com as memórias dos “troubles”, odeio inglêses e tenho certeza que sou ruiva de olhos verdes desde que nasci.

19

05 2013

O horror

Na Índia, em uma parte do estado de Uttar Praddesh, existe uma população que vive abaixo da linha de pobreza. Eu não sei se existe mais gente assim pelo resto da Índia, mas posso apostar que sim. Mas esses sobre os quais eu li vivem em pequenas vilas e fazem parte da casta dos intocáveis. Na Índia urbana, aquela que está no século 21, já não tem muita importância essa coisa de castas. Mas no interior castas fazem parte do cotidiano, e quanto mais pobre a região pior. Eles vivem nessas vilas, cercados por campos de trigo e de outros grãos que pertencem aos de castas superiores e principalmente à família que era a que era dona da região antes de acabarem com o poder dos marajás. Mas acabaram só oficialmente, porque nessas regiões mais pobres eles ainda são respeitados; mas muito mais porque intimidam e usam violência para manter essa população à míngua. Como sempre usaram. Esses intocáveis sobrevivem na maior parte do tempo de uma maneira impensável: os ratos pegam grãos nos campos e levam para as suas tocas, os intocáveis andam pelos campos procurando esses buracos, enfiam as mãos neles, catam os grãos e essa é a alimentação deles e de suas famílias. Existem vários programas do governo indiano para ajudar essa população tão necessitada, mas a corrupção dos funcionários públicos e as castas superiores da região não deixam que quase nada chegue a eles. Quase tudo fica pelo caminho, enriquecendo os corruptos e os sem escrúpulos.
E eu, cujo problema do dia é que meu carro estava prá lá de sujo, me senti ao mesmo tempo uma pessoa horrível por viver em um mundo onde esse tipo de coisa acontece e não fazer praticamente nada prá ajudar e muito, mas muito sortuda e mimada por não ter idéia o que seja viver uma situação tão terrível.

16

05 2013

Ouve isso.

Antonio Zambujo, português, maravilhoso.

Clarice Falcão, brasileira, deliciosa.

13

05 2013

Compro? Ou não compro?

Mais de 800 mortos na fábrica em Bangladesh. Uma tragédia, etc. e tal, todos os lugares comuns publicados pela imprensa quando alguma coisa assim acontece. Bangladesh é um dos países mais pobres do mundo. A indústria de confeção conseguiu a proeza de levar ao país 18 bilhões de dólares por ano. É uma maravilha prá um lugar com a pobreza endêmica de incontáveis gerações como Bangladesh. Mas pobreza nunca tem uma causa só, e uma delas é a corrupção do governo e da burocracia. O círculo vicioso de fiscais corruptos, govêrno indiferente, empresários gananciosos e companhias estrangeiras que querem o produto mais barato possível leva ao que aconteceu. Logo se levanta o coro prá se boicotar produtos de Bangladesh. Mas o que acontece com os trabalhadores de lá, que se não tiverem esse emprego – mesmo mal pago, mesmo sem segurança – não tem como sobreviver e sustentar suas famílias? É complexo (e o que não é?). Se há boicote, os trabalhadores sofrem. Se não há, a situação continua a mesma, exploração, falta de segurança, etc. Se boicotamos as empresas aqui nos EUA que contratam as fábricas em Bangladesh elas simplesmente abandonam o país e levam rapidamente o seu “business” prá outro lugar necessitado, que os espera de braços abertos. Se pressionamos o governo americano através de deputados, senadores, abaixo-assinados e afins ele pressiona o governo de Bangladesh e até que tudo isso aconteça se passaram décadas. Qual é a solução? A ideal seria que as companhias estrangeiras fiscalizassem todas as fábricas que fazem serviço para elas no mundo inteiro; que tivessem um sistema de supervisão que incluísse segurança, salários justos e máximo de horas de trabalho. Se a fábrica não cumpre é descartada. Mas e o lucro? Um sistema assim custa dinheiro. E essas companhias cortam todos os centavos a mais, são máquinas eficientes de maximizar o lucro. Algumas ainda tentam, principalmente essas que tem como cliente alvo a classe média mais informada, como J. Crew e Ralph Lauren. Mas a Walmart não tem jeito; sua clientela não se importa se tem gente morrendo do outro lado do mundo se eles podem comprar uma camiseta por 5 dólares. Na verdade eles nem sabem onde fica Bangladesh. Não é preconceito não, é a realidade. A Walmart e afins tem como consumidores a classe média baixa do vasto interior dos EUA, e nas partes mais pobres das cidades. E muitas vezes, no interior, é a única loja grande da região. Ninguém vai andar duas horas de carro até a cidade maior mais próxima prá salvar alguém em Bangladesh. Vai gastar gasolina, tempo e não vai achar camiseta por 5 dólares. E nos bairros mais pobres as pessoas vivem de pagamento a pagamento, não tem um centavo a mais. Não estou julgando se está certo ou errado, mas só falando como é. É uma situação difícil, com solução mais difícil ainda. E quando eu encontrar na Target uma ótima camiseta, prá mim ou prás netas, com o preço de 12 dólares e a etiqueta marcando que foi feita em Bangladesh, ou na Indonésia ou em Gana ou na Etiópia ou na Guatemala? Compro ou não compro?

08

05 2013

Angola, Espanha, Cupim

Parabéns prá Angola, que proibiu as igrejas evangélicas brasileiras no país. Elas não são nada mais do que pura exploração de pessoas ignorantes e muitas vezes desesperadas. Se aproveitam dos mêdos, das dificuldades e dos problemas das pessoas prá enriquecerem. Simples assim. Ali não tem nenhuma espiritualidade, compaixão ou vontade de ajudar. Viva Angola.

O desemprego na Espanha – que é igual ao da Grécia – atingiu 27% da população. Isso é uma loucura. É o mesmo nível de desemprego da Grande Depressão dos EUA depois de 1929, e da República de Weimar na mesma época na Alemanha. Esses são sempre os exemplos extremos de desemprego no século 20. O que vai acontecer com esses países? Nunca imaginaria ver países europeus numa crise assim. O que eu faria na Espanha – num momento de loucura, imagine que eu tenho o poder de fazer qualquer coisa pela Espanha! Eu colocaria na rua, demitiria, a família real, que custa uma fábula e não serve prá nada. Além do que agora tá envolvida em um escândalo de corrupção. E o rei tem uma amante loirona bonitona com a qual gastou uma grana de dinheiro público. Rua neles. A Espanha tem primeiro-ministro, tem parlamento. Não precisa dessa família real. É um começo.

Game of Thrones tá uma delícia essa temporada. Como sempre.

Minha casa tem cupim. Aqui no sur de la Florida, como em São Paulo, tem muito. Só que aqui eles cobrem a casa toda com uma lona e colocam veneno. A gente tem que ficar dois dias em outro lugar, e tirar toda a comida da casa. As plantas encostadas na casa morrem, e eu já tô chorando meus dois jasmins no jardim de trás e minhas samambaias no da frente. Mata tudo: cupim, barata, formiga e afins. Que trabalho, que encheção, que preguiça.

29

04 2013

EUA vilão, EUA mocinho?

Essa coisa de mídia social faz a gente saber muito mais do que antes as opiniões das pessoas. E com essas bombas em Boston muita gente aí no Brasil postou o que pensa sobre o assunto. E sobre os EUA. Eu moro aqui faz tempo, e posso dizer que sei como o país funciona, da mesma maneira que sei como o Brasil funciona. Como é o sistema político, quais as principais forças políticas, como o país é dividido, etc. Sabe do que eu tô falando? Aprendi a distinguir as diferenças entre alguém que mora na costa oeste, no centrão, no sul, na cota lesta, da mesma maneira como no Brasil sabemos distinguir quem é do sudeste, do nordeste e assim por diante. Mas isso, é claro, é meio estereotipado, preto e branco. Tem obviamente todo tipo de pessoa em todos os lugares. Também aprendi o que é importante aqui prá maioria das pessoas, quais os valores mais estimados. Emprego, patriotismo, fé em alguma religião (menos Islã…) e fama/celebridade: isso mais ou menos resume as ambições americanas.

Também sei os defeitos; não suporto essa coisa nacionalista, essa coisa de ser o melhor país do mundo (melhor prá quem?!?!), e principalmente essa coisa de ser a polícia do planeta – que na verdade é uma máscara prá poder entrar em todos os cantos e espalhar os “business”, vender Coca-Cola, armas, cigarro e tudo o mais prá todo mundo. Essa idiotice de achar que o pessoal do Oriente Médio quer acabar com a liberdade do povo americano, isso me deixa louca. E pior, eles falam “acabar com as nossas liberdades”, põe no plural, o que não faz sentido. Outra coisa que me irrita é como tudo é o melhor do mundo; o campeonato americano de beisebol – esporte que além de tudo é praticado por poucos países do mundo -  é chamado de “world series”, ou seja, como se o time que ganhasse fosse campeão mundial. Pô, que idiota! E tudo é assim. Hoje mesmo a Gwyneth Paltrow foi “eleita”  pela revista People a mulher mais bonita do mundo. Como assim??! Nada contra a Gwyneth, mas eles olharam o resto do mundo? Esse EUA-centrismo é de uma pobreza cultural, política, sociologica incrível, além de ser uma falta de sensibilidade absoluta.

Mas adoro a mistura de povos, a imensa produção cultural (tem de tudo, do horrível ao maravilhoso), a constituição e a Bill of Rights feitas lá no finalzinho do século 18, a beleza natural do país. A democracia é imperfeita, mas tá aí faz tempo. O processo político é complicado, barroco até, elegem-se umas antas, gastam-se fortunas nas eleições, e o que realmente acontece nos bastidores da Casa Branca e do Congresso nunca saberemos, e é isso que governa o país; o povo tem apenas a ilusão que participa. Mas não é assim em todos os lugares? Não somos governados/manipulados pelos governos/bancos/interesses econômicos/etc. no mundo todo? Achar que é diferente é inocência de adolescente idealista.

Então os EUA, como o Brasil, é altamente complexo, diversificado, e cheio de defeitos e qualidades. Não é esse lugar que muita gente no Brasil imagina. Não adianta ter feito turismo um monte de vezes; a gente só conhece mesmo um país quando mora nele, quando vive o dia-a-dia. Não é monoblóquico. O governo, CIA, etc. não vivem de enquadrar inocentes, e conspirar contra o resto do mundo, e fazer atentados contra a própria população e colocar a culpa em inocentes. Não acho nem de longe que o governo americano foi algum dia e é hoje puro e inocente. Muito pelo contrário: eles foram/são grandes manipuladores mundiais, e protegem a quase qualquer custo os interesses americanos. Mas isso de dizer que estão enquadrando os dois moços de Boston é bobagem. A imensa mídia americana, que não deve ser colocada como uma coisa só, porque é muito variada (principalmente com a internet) não deixaria passar isso. Todas as crítica feitas pelos brasileiros são feitas aqui também; todas as perguntas ditas não respondidas feitas pelos brasileiros também foram feitas aqui. As pessoas olham a CNN e acham que aquilo é os EUA. É a mesma coisa que achar que a Globo é o Brasil. Aliás, a Globo é mais representante do Brasil do que a CNN é dos EUA.

Não estou defendendo os EUA, porque eles realmente não precisam de mim prá isso. Mas estou tentando dizer que a realidade é mais complicada do que “EUA inimigo, EUA vilão”. Em todos os países tem o bom e o ruim. A Suécia, um dos lugares que mais respeitam os direitos do cidadão e que tem nível de vida mais alto tem um imenso movimento neo-nazista. A Austrália, democrata, moderna, é um dos lugares com política imigratória mais restritiva. O Brasil, maravilhoso em tantos aspectos, tem políticos horrorosos; o que é esse pastor que preside agora a comissão de direitos humanos? O mundo é imperfeito, nós somos imperfeitos, mas um pouco de bom senso e conhecimento histórico não fazem mal prá ninguém.

24

04 2013

Estressada

Pita escondida 4:13

A Pita tá escondida; não aguenta mais ver as notícias na tv, nem ler na internet. Tá estressada demais. Essa coisa da globalização dá nisso. Globalizam o Game of Thrones, as bolsas Vuitton, globalizam a Beyoncé, mas globalizam a merda também. Olha aí o conflito Rússia-Chechnia aparecendo em Boston, numa segunda-feira de abril, provocando um horror a milhares de quilômetros de distância. Conflito globalizado, conflito fora de lugar. Hoje em dia temos que viver tudo o que acontece no mundo, não bastam as nossas tragédias e comédias locais. Temos que viver o Congo, a Somália, a Líbia, a Síria, a Chechnia. Temos que viver a crise grega, a violência no México, e a Coréia do Norte. Não existe mais a ignorância; quem não sabe é porque não quer. Eu não consigo viver sem saber, mas tenho uma profunda inveja de quem consegue. Aquelas pessoas prá quem você pergunta “viu o que aconteceu com a situação do Congo? ” e eles respondem “não, tá acontecendo alguma coisa lá?”. Ai que inveja.

19

04 2013

Quarta

Eu adoro que o Tsar Alexandre III, depois que o pai foi assassinado em 1881, tinha tanto mêdo que olhava em baixo da cama antes de dormir prá ver se não tinha revolucionário assassino escondido ali.

Meninas na mesa ao lado, no restaurante da livraria. Três meninas, vinte e poucos anos. Falando sobre os signos delas e dos namorados, falando coisas tipo “não é à toa que vocês se dão bem, ele é áries e você é sagitário” (ou alguma coisa parecida). Uma vontade quase irresistível de me meter na conversa e falar prá irem ler, se informar e aprender que astrologia é uma imensa bobagem, sem nenhuma lógica. Quando foi criada não tínhamos o conhecimento de astronomia que temos hoje, e que faz da astrologia uma besteira sem tamanho. Mas me comportei e fiquei quieta. E elas continuaram a conversa sem me olharem com aquela cara “quem é essa mulher louca se metendo na nossa conversa”. Parabéns para mim.

Lendo sobre a Alemanha em 1933. Acho que a gente pode considerar março de 1933 um dos piores meses na história da humanidade.

10

04 2013

RMSP Avon

Avon02

Esse é o navio que levou meus avós e meu pai de Lisboa para o Brasil em 1924. Eles saíram de Rostov, no sul da URSS, foram para Riga, na Latvia, norte da URSS, onde conseguiram visto no consulado brasileiro. Daí chegaram em Lisboa – imagino que de navio, pelo Mar do Norte – e aí por esse naviozinho inglês foram pro Brasil. Uma idéia maravilhosa dos meus avós. Não que eles tivessem muitas opções. Mas podiam ter ficado lá, como muitos parentes nossos ficaram. Viva a coragem de se mudar pro outro lado do mundo.

 

Tags: , , ,

04

04 2013