Essa coisa de mídia social faz a gente saber muito mais do que antes as opiniões das pessoas. E com essas bombas em Boston muita gente aí no Brasil postou o que pensa sobre o assunto. E sobre os EUA. Eu moro aqui faz tempo, e posso dizer que sei como o país funciona, da mesma maneira que sei como o Brasil funciona. Como é o sistema político, quais as principais forças políticas, como o país é dividido, etc. Sabe do que eu tô falando? Aprendi a distinguir as diferenças entre alguém que mora na costa oeste, no centrão, no sul, na cota lesta, da mesma maneira como no Brasil sabemos distinguir quem é do sudeste, do nordeste e assim por diante. Mas isso, é claro, é meio estereotipado, preto e branco. Tem obviamente todo tipo de pessoa em todos os lugares. Também aprendi o que é importante aqui prá maioria das pessoas, quais os valores mais estimados. Emprego, patriotismo, fé em alguma religião (menos Islã…) e fama/celebridade: isso mais ou menos resume as ambições americanas.
Também sei os defeitos; não suporto essa coisa nacionalista, essa coisa de ser o melhor país do mundo (melhor prá quem?!?!), e principalmente essa coisa de ser a polícia do planeta – que na verdade é uma máscara prá poder entrar em todos os cantos e espalhar os “business”, vender Coca-Cola, armas, cigarro e tudo o mais prá todo mundo. Essa idiotice de achar que o pessoal do Oriente Médio quer acabar com a liberdade do povo americano, isso me deixa louca. E pior, eles falam “acabar com as nossas liberdades”, põe no plural, o que não faz sentido. Outra coisa que me irrita é como tudo é o melhor do mundo; o campeonato americano de beisebol – esporte que além de tudo é praticado por poucos países do mundo - é chamado de “world series”, ou seja, como se o time que ganhasse fosse campeão mundial. Pô, que idiota! E tudo é assim. Hoje mesmo a Gwyneth Paltrow foi “eleita” pela revista People a mulher mais bonita do mundo. Como assim??! Nada contra a Gwyneth, mas eles olharam o resto do mundo? Esse EUA-centrismo é de uma pobreza cultural, política, sociologica incrível, além de ser uma falta de sensibilidade absoluta.
Mas adoro a mistura de povos, a imensa produção cultural (tem de tudo, do horrível ao maravilhoso), a constituição e a Bill of Rights feitas lá no finalzinho do século 18, a beleza natural do país. A democracia é imperfeita, mas tá aí faz tempo. O processo político é complicado, barroco até, elegem-se umas antas, gastam-se fortunas nas eleições, e o que realmente acontece nos bastidores da Casa Branca e do Congresso nunca saberemos, e é isso que governa o país; o povo tem apenas a ilusão que participa. Mas não é assim em todos os lugares? Não somos governados/manipulados pelos governos/bancos/interesses econômicos/etc. no mundo todo? Achar que é diferente é inocência de adolescente idealista.
Então os EUA, como o Brasil, é altamente complexo, diversificado, e cheio de defeitos e qualidades. Não é esse lugar que muita gente no Brasil imagina. Não adianta ter feito turismo um monte de vezes; a gente só conhece mesmo um país quando mora nele, quando vive o dia-a-dia. Não é monoblóquico. O governo, CIA, etc. não vivem de enquadrar inocentes, e conspirar contra o resto do mundo, e fazer atentados contra a própria população e colocar a culpa em inocentes. Não acho nem de longe que o governo americano foi algum dia e é hoje puro e inocente. Muito pelo contrário: eles foram/são grandes manipuladores mundiais, e protegem a quase qualquer custo os interesses americanos. Mas isso de dizer que estão enquadrando os dois moços de Boston é bobagem. A imensa mídia americana, que não deve ser colocada como uma coisa só, porque é muito variada (principalmente com a internet) não deixaria passar isso. Todas as crítica feitas pelos brasileiros são feitas aqui também; todas as perguntas ditas não respondidas feitas pelos brasileiros também foram feitas aqui. As pessoas olham a CNN e acham que aquilo é os EUA. É a mesma coisa que achar que a Globo é o Brasil. Aliás, a Globo é mais representante do Brasil do que a CNN é dos EUA.
Não estou defendendo os EUA, porque eles realmente não precisam de mim prá isso. Mas estou tentando dizer que a realidade é mais complicada do que “EUA inimigo, EUA vilão”. Em todos os países tem o bom e o ruim. A Suécia, um dos lugares que mais respeitam os direitos do cidadão e que tem nível de vida mais alto tem um imenso movimento neo-nazista. A Austrália, democrata, moderna, é um dos lugares com política imigratória mais restritiva. O Brasil, maravilhoso em tantos aspectos, tem políticos horrorosos; o que é esse pastor que preside agora a comissão de direitos humanos? O mundo é imperfeito, nós somos imperfeitos, mas um pouco de bom senso e conhecimento histórico não fazem mal prá ninguém.