Toda cidade tem múltiplas personalidades. Tem a São Paulo da vida noturna, totalmente desconhecida por mim. Tem a São Paulo dos cinemas, livrarias, escolas, restaurantes – essa eu conheço. Tem a São Paulo das pessoas que pegam duas horas de ônibus prá chegar em um emprego miserável. Essa eu tenho a sorte de não ter vivido. Toda cidade aceita vários tipos de vidas e ocupações.
Miami é assim também. Sei que muita gente implica, que é o playground das elites horrorosas da América Latina. Que é superficial e que as pessoas vêm prá cá prá ir em shoppings e night clubs e na praia. E esse lado existe. Mas essa não é nem de longe a minha Miami. Conheço a cidade faz quase 30 anos. A coisa que mais me impressionou quando vim pela primeira vez foi a luz. Aqui tem uma luz maravilhosa. A cidade é totalmente plana. Mas plana mesmo, não tem nem uma colininha. E quase não tem prédios. Então o céu é imenso, escandalosamente azul, e produz essa luz deliciosa.
Mas deixa eu esclarecer: quando falo da minha Miami, é a cidade ao sul de “downtown”. É onde quase não tem turistas. São os bairros residenciais: Coral Gables, Coconut Grove, Pinecrest, Kendall e outros. Porque o que se conhece como Miami é uma faixa que vai de Miami Beach e Aventura ao norte até o começo dos Keys no sul. Mas isso é na verdade uma série de cidades coladas umas nas outras. Seguindo do norte pro sul, North Miami Beach, Miami Beach e Aventura tem uma personalidade. South Beach é outro bicho completamente. Aí vem downtown e a Brickell Avenue, onde tem um monte de prédios, com escritórios e alguns de moradia. Aí vêm a minha parte. Sem contar que pro sudoeste tem toda uma região com pequenos sítios, onde se plantam as mais diversas frutas. Pro oeste tem os Everglades, um parque nacional maravilhoso, feito de pântanos, com um ecosistema riquíssimo. Pro leste, o mar. Pro norte, tem Fort Lauderdale, Delray, e vai indo até chegar no estado da Georgia. Pro sul, os Keys, uma faixa de ilhas ligadas por pontes que divide o Oceano Atlântico e o Caribe. O último key é Key West, que fica a 90 milhas ( menos de 150 Km) de Cuba.
Então eu moro em uma cidade de tamanho médio, onde o trânsito flui, e raramente se demora mais que 30 minutos prá chegar em algum lugar. Uma cidade com índice de violência quase nulo. Uma cidade que é – e já estive em muitas cidades pelo mundo afora – a cidade mais verde, cheia de árvores e jardins que já vi. Excelentes supermercados, boas livrarias, infraestrutura mais do que decente. E com uma das coisas que mais gosto em uma cidade: a população é variada. Tem um monte de cubano, é verdade. Mas também nicaraguenses, colombianos, franceses, mexicanos e assim por diante. Nada faz uma cidade mais interessante do que isso. Minhas netas já tiveram amigas inglesas, filipinas, chinesas e assim por diante. Isso não tem preço.
É uma cidade prá todo mundo? Não. Mas nenhuma o é. Conheço gente que não suporta Nova York. Ou Paris. Mas adora Geneva. Ou Berlin. Ou Atibaia. Odeia São Paulo, mas adora Porto Alegre.
Eu sou altamente adaptável. Tem várias cidades no mundo nas quais eu me instalaria alegremente. Miami é uma delas. E com a vantagem de ser extremamente bem localizada geograficamente: em Miami me sinto no meio do mundo. Fácil de ir pro Brasil e prá Europa. Prá todos os EUA. México e Caribe. Vou começar a postar fotos dessa minha Miami, prá mostrar como ela é.