Só sei que nada sei
Pelo que eu saiba, existem dois tipos de protestos em massa. O primeiro tem a intenção de derrubar um governo ou um regime. O segundo é contra alguma coisa específica, como 68 em Paris (reforma educacional) ou os protestos que se via na Europa nos anos 90 e na primeira década do século 21 (manutenção de direitos adquiridos). Esses no Brasil agora não são nem um nem outro. A gôta d’água foi o aumento da passagem de ônibus, mas isso já ficou prá trás, me parece. Entendo serem demonstrações contra a corrupção, a falta de serviços públicos decentes, o gasto enlouquecido com estádios em vez de escolas e hospitais, o dia a dia frustrante do brasileiro, que paga muito e recebe pouco. Mas como resolver isso? Os políticos não vão falar “ tá bom, entendemos, não vamos mais ser corruptos”. O povo do mensalão não vai prá prisão. Nem vai devolver o que roubou. O governo não vai diminuir prá poder ter dinheiro prá dar melhores serviços prá população. Não adianta resolver no voto, porque quando chegam as eleições 99,9% dos candidatos entram na corrida eleitoral pensando como vão ficar ricos se forem eleitos. Não há escolha decente. Nossa presidenta, aparentemente, tá assustando investidores internacionais, o dólar subindo por causa disso, a inflação devagar voltando. O Brasil vai bem, mas comparativamente num mundo em que quase todos os países estão indo mal. Imagina com um presidente competente na economia, com uma corrupção mais limitada (não existe governo sem corrupção, eu acho, nem na Suécia), com investimento na educação a longo prazo. A gente ia ser o máximo! Mas não sou idealista e acredito que isso não vai acontecer. Não sei o que esses protestos pretendem na prática; tá todo mundo achando eles uma maravilha, inclusive o governo! Meio sem sentido, enfim. Eu gosto de ver as pessoas protestando, dizendo que estão contra isso ou aquilo, mas por enquanto não vejo o propósito prático disso tudo. E sou desconfiada que é a peste, então fico pensando em quem tá atrás disso tudo. Deve ter uma jogada política maior que a gente não sabe. Vamos ter que esperar e ver, observar, ler a mídia com pé atrás. E talvez quem sabe algum dia a gente saiba a verdade.
Essas frases feitas, tipo “o gigante acordou” ou “não mais deitados em berço esplêndido, mas sim verás que o filho teu não foge à luta” me irritam. O gigante nunca dormiu, e luta é outro departamento. Menos, gente, menos.
Tem muita gente assim velhinha que nem eu muito entusiamada com tudo isso. Gente inteligente. Talvez porque estejam aí no Brasil vejam as coisas melhor que eu; ou talvez eu que esteja longe veja melhor. Não sei, confesso.

