
Não gostei do Judische Museum de Berlin (museu judaico). A arquitetura é confusa, prá começar. Nunca se sabe prá que lado ir, a gente fica o tempo todo com a impressão de que perdeu um pedaço da exposição, pulou uma sala. Tiveram que pôr flechinhas no chão prá mostrar prá que lado ir – isso não é bom sinal. Em um bom museu o caminho é natural, sem confusão. É uma arquitetura espetacular, mas nada funcional. De cima, como a foto mostra, o museu é uma estrela de Davi desconstruída. Por dentro é um labirinto.
Também não gostei da maneira como o conteúdo foi exposto. Aliás, coisas mesmo tem poucas. Muita tecnologia, muitas fotos aumentadas, pouca personalização. Cada vez mais gosto de museus com poucas peças, de alta qualidade, informação interessante em quantidade palatável e lineares, compreenssíveis. Tratar o material partindo de sua ligação humana – uma carta, por exemplo, só uma, mas contar o contexto, mostrar o rosto, a vida de quem escreveu e de quem recebeu. Esse museu de hoje tem uma imensa quantidade de texto e de história, tudo corrido. A segunda guerra é contada em uma parede! Eles tiveram sucesso, relativo ao meu ver, mostrando como os judeus eram importantes na vida cultural, científica e financeira da Alemanha antes da guerra. Mas ainda assim achei um museu sem emoção – e com esse assunto, não dá prá ser frio. E parece que é visita obrigatória por adolescentes alemães. Tinha um monte de grupos visitando, com aquela cara de saco cheio que só adolescente sabe fazer. Segundo o Vitor e o Pedro, obrigando os adolescentes a visitarem o museu eles estão criando uma geração de anti-semitas. Nada obrigatório nessa idade dá certo…
Ficamos tão desapontados que resolvemos sair de lá e ir ver o que se chama Topografia do Terror. É onde foi o quartel-general da Gestapo, da SS e dos outros comandos nazistas. Depois da guerra tudo foi demolido. E ficou vazio. Em 1987 eles inauguraram esse lugar. Cavaram o terreno, deixaram exposto de um lado o porão da Gestapo, um dos lados é seguido pelo muro da guerra fria (que ali foi deixado). Construíram uma estrutura que parece levitar sobre o terreno e que ocupa apenas 1/4 do espaço. O resto é preenchido por pedras, como mostrando que ali nada pode crescer. Dentro tem uma exposição permanente sobre a formação do nacional socialismo, sua tomada do poder e evolução. Tudo detalhado, extremamente bem explicado, linear, simples. Muitas fotos. A história passsa pela guerra, seus perpetradores, sua vítimas. Fotos mostrando como os alemães abraçaram o nazismo em sua maioria; isso aliás é escrito claramente nos textos. Mostra como eles se sentiam invencíveis e como deram todo o poder prá um bando de pessoas sem o menor caráter e moral. A perseguição e o assassinato de judeus, roma, homossexuais, pessoas que eram contra o nazismo, comunistas. O assassinato de pessoas com defeitos físicos e com retardamento mental. Assassinatos frios e programados. Ali a gente vê as ordens, as promoções, as leis, tudo. O final da guerra e, em um final que combina perfeitamente com o resto, como poucos assassinos e monstros foram castigados – presos ou condenados. Muitos ficaram 4, 5 anos na cadeia. Outros passaram por um processo de desnazificação. Outros foram liberados sem julgamento. Outros nunca foram encontrados. Uma ínfima minoria pagou pelos seus crimes. Um final triste prá uma história mais triste ainda.
Mas também, como vir a Berlin e não ver tudo isso? Foi aqui que tudo começou e daqui tudo foi comandado. No Topographie fica muito claro a mensagem de “esse horror aconteceu aqui, e foi criado por alemães”. E também “vamos refletir sobre isso, saber o máximo possível, tentar entender, prá não se repetir em lugar nenhum do mundo”. Então, se alguém vier a Berlin, recomendo enfáticamente o Topographie des Terrors. E aconselho a pular o Judische Museum.