Não entendo bem algumas coisas. Melhor, não entendo bem muitas coisas. Exercício é uma delas. Me sinto melhor quando faço, sei que prolonga a vida e que além disso dá mais qualidade à esse prolongamento. Mas não é natural, pelo menos prá mim. É um esforço juntar a energia necessária prá sair de casa e ir na academia. Vai contra minha essência, meu mais profundo eu! Eu brigo com esse eu, falo prá ele que faz bem, etc. e tal, mas ele não se convence. E quando vejo essas pessoas correndo aqui, um calor danado, eu com uma moleza gigantesca e eles correndo, correndo! Impressionante como, apesar de sermos iguais em muitas coisas, somos tão diferentes em outras.
Outra coisa que não entendo é essa mania hoje em dia das pessoas serem ocupadíssimas, todos os minutos do dia agendados. É uma competição de quem tem menos tempo, de quem faz mais coisas. Que absurdo. Se você não tem seu dia todo dividido e briga com o relógio você não conta. Te olham como se você fosse uma louca. Mas prá mim louco é quem não pára, quem dorme 5, no máximo 6 horas por noite, quem diz com orgulho que gostaria que o dia tivesse mais horas. Essa insanidade, pelo que eu saiba, é inédita na história da humanidade. Sempre se teve tempo prá pensar, olhar o mundo, conversar. Do mais pobre ao mais rico, do analfabeto ao erudito, o olhar em volta e refletir sempre existiu. A luz elétrica é uma das culpadas, nem a noite nos dá folga. A necessidade de consumir inúmeras coisas é outra; prá pagar tudo isso se tem que trabalhar muito mais. Tem que ter seguro, do carro e da casa. E pagar impostos, pessoais e territoriais. E filho tem que ir na escola, 20 anos pelo menos de escola e afins. Tem que usar roupa na moda, em excelente estado, e ter muita. A casa tem que ter tudo prá todos, ser um refúgio, um mini-mundo pessoal. E a vida social? Cinema, teatro, restaurante, shows. Presentes. Férias. O custo de tudo isso é gigantesco. Só se trabalhando todas as horas do dia. E se tem que ser mãe e pai perfeito, e filho exemplar. Vivemos numa época em que nada é perdoado ou não comentado, uma época de julgamento também em todas as horas do dia. Imagino um aquário, com um peixe nadando muito, mas muito depressa, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Assim somos nós hoje em dia. Não pode ser bom.