
Ontem assisti um documentário da HBO chamado “A Small Act”. É uma história aparentemente simples, mas na verdade é uma série de acontecimentos complexos. No começo dos anos 80 uma mulher na Suécia, uma professora primária, decide participar de uma iniciativa de caridade sueca que arrumava patrocinadores para crianças quenianas que precisavam ajuda no pagamento da escola secundária. O sistema de educação no Quênia faz com que a educação secundária seja paga e poucas famílias conseguem arcar com esse custo, principalmente no interior do país. Essa mulher, chamada Hilde Back, começa a mandar US$15 por mês prá pagar a escola de um menino chamado Chris Mburu. Ele mora em uma casa de barro com sua família. Ele se forma na escola secundária com excelentes notas e segue para a Universidade de Nairobi, que é gratuita, prá cursar direito. Resolve, depois de se formar, fazer mestrado. Consegue uma bolsa da Fulbright e um lugar em Harvard. Depois do mestrado começa a trabalhar para a ONU. Hoje ele mora em Geneva e é coordenador da unidade de anti-discriminação da ONU. Viaja o mundo lidando com genocídio, conflitos e crises.
Em 2003 ele decide fazer uma fundação prá ajudar crianças quenianas a irem prá escola secundária, assim como ele foi ajudado. Ele e um pequeno grupo que ele convida para formar o conselho da fundação doam as primeiras bolsas. Na hora de pensar um nome prá fundação ele lembra da sueca que o ajudou. Ele só sabia o nome dela e que ela era professora. Coloca o nome dela na fundação: Hilde Back Education Fund. Ele consegue achar Hilde. Manda uma carta, contando a história e convidando ela a ir ao Quênia prá inauguração da fundação. Ela se assusta; já tinha até esquecido que há mais de vinte anos havia doado esse dinheiro. Mas vai. E ela cria um relacionamento lindo com esse menino que tem a ela como uma heroína.

Hilda e Chris
O incrível é que Hilde é alemã. Em 1940 sua família tentou ir para a Suécia como refugiados, mas só ela foi aceita. O resto da família morreu no Holocausto. Ela chega na Suécia com 20 anos, sem saber falar uma palavra de sueco. Aprende a língua e vira professora. Nunca se casou ou teve filhos. Mas não perdeu a empatia pelo próximo. Mesmo sendo uma pessoa considerada classe média baixa na Suécia, doa essa educação para Chris. E muito mais; colabora com várias caridades.

O documentário conta essa história e segue também o processo de seleção das bolsas da fundação do Chris. Segue 3 crianças, um menino e duas meninas, da mesma escola onde ele estudou. Eles moram em casas de barro ou madeira. Não tem luz elétrica; estudam com a luz de lamparinas de óleo. Tem que ajudar a família, colher café, trabalhar em horta, etc. O sonho da educação secundária é uma coisa gigantesca: eles sabem que essa educação tem a possibilidade de mudar a vida deles e das suas famílias. Estudam como podem, na escola precária, com professoras mal capacitadas e um currículo medíocre. Eles tem que fazer um exame que todas as crianças quenianas que vão para o secundário tem que prestar. A fundação usa a nota desse exame para selecionar seus bolsistas. Os três não vão muito bem no exame. Mas o conselho da fundação do Chris decide baixar os padrões de recebimento das bolsas, porque apenas duas crianças conseguem a nota corte estabelecida por eles. O nível da educação é baixo; ou eles abaixam a nota corte ou não dão as bolsas. O menino seguido pelo documentário ganha uma das 10 bolsas oferecidas esse ano ( as bolsas cobrem os 4 anos do estudo secundário). A produção do documentário, depois de seguir a vida difícil das duas meninas, não consegue se afastar do problema e resolve arcar com a educação das duas.
Depois do documentário ficar pronto e ser mostrado em festivais (inclusive Sundance) e fóruns em vários lugares a fundação começa a receber doações de fora. Até aí Chris e oo membros do conselho arcavam com tudo. E agora, que passou na HBO aqui nos States, vão receber muito mais. Merecidíssimo. É uma história linda. Não é?