Quando eu era criança eu tinha um livro que eu adorava chamado Contos de Shakespeare, de Charles e Mary Lamb. Eram as peças de Shakespeare transformadas em estórias para crianças. Esse foi meu primeiro contato com ele. Já li algumas peças, já vi algumas no teatro e já vi alguns filmes. A minha estória preferida é Hamlet (apesar de gostar muita da Tempestade). Adoro aquele drama todo e no fim…morre todo mundo! É o máximo. Tem um livro maravilhoso de 2000 do John Updike chamado “Gertrude and Claudius” (Gertrudes e Claúdio, edição da Companhia das Letras) no qual ele conta a estória sob o ponto de vista da mãe e do padrasto do Hamlet.
Então quando fiz meus planos prá ir prá Nova York minha primeira compra foi a de entradas prá ver Hamlet numa produção da Donmar Warehouse, com o Jude Law fazendo o papel principal. Li o texto, me preparei, e fui.
E posso dizer que foi inesquecível. Sabe quando você sabe que tem cenas que você não vai esquecer, que naquele momento foram gravadas no teu cérebro (mesmo prá uma pessoa com minha péssima memória…)? Foi assim. O elenco era excelente. As roupas inteligentes – explico: não eram roupas de época, eram modernas, mas com um visual meio atemporal, em cores que se complementavam, cinzas, preto, azul bem escuro, branco. O cenário era monumental, paredes de pedra (qualquer coisa que imita pedra com perfeição) de 10 metros de altura, panos que despencam do teto em metros e metros de cor e a luz transformando tudo isso em castelo, em cemitério, em torre. Como todo cenário genial era simples e impactante.
E no meio de tudo isso o Jude Law. Ele não é grande, é um cara de tamanho normal, um corpo flexível, não terrivelmente magro. Um rosto bonito, com colorido lindo. Os traços fortes e grandes, expressivos. Uma voz perfeita prá teatro, locução impecável. Ele se entrega pro papel de uma maneira que eu só pensava como ele devia sair exausto todas as noites do teatro. Hamlet tem monólogos extensos, está em cena quase que o tempo todo. E esse ator pequeno ocupa aquele espaço grande totalmente, ele preenche o vazio do espaço e só dá ele ali, falando, se movendo, sofrendo… Impressionante. Dizem que os melhores Hamlets foram John Guilgud, Lawrence Olivier, Simon Russel Beale, Kevin Kline e Kenneth Branagh. Resta saber se os críticos vão colocar Jude Law nessa lista.
Jude Law (Hamlet), Geraldine James (Gertrude) e Kevin R. McNally (Claudius).


Jude Law (Hamlet) e Gugu Mbatha-Raw (Ophelia)

