Lá vem…




Tem mais gente vivendo dentro desse círculo do que fora dele. Impressionante.
Adorei. Eu pratico tsundoku religiosamente. E viva o tsundoku.
Eu não sou irlandesa. Aliás, eu não devo ter nem uma gota de sangue irlandês. Nada. Nadinha. Sou judia do leste europeu, provavelmente uma mistura de judeus alemães que foram expulsos para a Polônia nos séculos 13 ou 16, e de judeus do Império Otomano que moravam onde hoje é a Moldova. Bom, isso tudo prá dizer que quando escuto alguém cantando Danny Boy como deve ser, lentamente, com drama, eu viro irlandesa. Começo a sofrer com as memórias dos “troubles”, odeio inglêses e tenho certeza que sou ruiva de olhos verdes desde que nasci.
Tem muita coisa misteriosa no mundo. Uma das que mais me intrigam é porque algumas coisas que podem acontecer a qualquer hora acontecem na pior hora. Aqui nos EUA é obrigatório ter alarme de fumaça em casa; a companhia de seguro exige e os fiscais que inspecionam depois de uma reforma ou construção também. Eu tenho 3 aqui em casa: dois no corredor e um no meu quarto. Eles são ligados na eletricidade e também tem uma bateria. Agora, me explica porque essa bateria sempre, mas sempre, acaba de madrugada. Já tive alarme em várias casas e apartamentos. É sempre a mesma coisa. Duas da manhã, três da manhã, nunca às duas da tarde, às três da tarde. É um apito, um alarme tão forte, que quase mata a gente do coração. Pula da cama, acende a luz, acha uma escada, sobe na escada, desatarracha o alarma do teto, desencacha os fios, desce da escada, tira a bateria. E aí volta prá cama, com o coração acelerado, xingando o alarme, o inventor do alarme, o fabricante do alarme, a mãe do fabricante, a avó do inventor, e assim por diante. É ou não é uma coisa misteriosa?
Na Índia, em uma parte do estado de Uttar Praddesh, existe uma população que vive abaixo da linha de pobreza. Eu não sei se existe mais gente assim pelo resto da Índia, mas posso apostar que sim. Mas esses sobre os quais eu li vivem em pequenas vilas e fazem parte da casta dos intocáveis. Na Índia urbana, aquela que está no século 21, já não tem muita importância essa coisa de castas. Mas no interior castas fazem parte do cotidiano, e quanto mais pobre a região pior. Eles vivem nessas vilas, cercados por campos de trigo e de outros grãos que pertencem aos de castas superiores e principalmente à família que era a que era dona da região antes de acabarem com o poder dos marajás. Mas acabaram só oficialmente, porque nessas regiões mais pobres eles ainda são respeitados; mas muito mais porque intimidam e usam violência para manter essa população à míngua. Como sempre usaram. Esses intocáveis sobrevivem na maior parte do tempo de uma maneira impensável: os ratos pegam grãos nos campos e levam para as suas tocas, os intocáveis andam pelos campos procurando esses buracos, enfiam as mãos neles, catam os grãos e essa é a alimentação deles e de suas famílias. Existem vários programas do governo indiano para ajudar essa população tão necessitada, mas a corrupção dos funcionários públicos e as castas superiores da região não deixam que quase nada chegue a eles. Quase tudo fica pelo caminho, enriquecendo os corruptos e os sem escrúpulos.
E eu, cujo problema do dia é que meu carro estava prá lá de sujo, me senti ao mesmo tempo uma pessoa horrível por viver em um mundo onde esse tipo de coisa acontece e não fazer praticamente nada prá ajudar e muito, mas muito sortuda e mimada por não ter idéia o que seja viver uma situação tão terrível.
Essa coisa de mídias sociais, né. Não vou escrever nada de original sobre o assunto, tenho certeza. Eu pessoalmente gosto muito das mídias sociais; gosto de twitter, instagram e facebook. Mais que 3 não tenho capacidade nem vontade de usar. É mais que suficiente. Gosto dessa coisa de saber o que tá acontecendo na vida das pessoas que conheço, gosto de saber o que tá interessando a elas, o que elas estão assistindo, lendo, pensando. Ainda mais eu que moro longe de todos. Vejo as crianças crescendo, amigos comemorando, viajando. No instagram e twitter também sigo pessoas que admiro, autores e pensadores, atores, jornalistas. Enfim, acho genial toda a idéia e muitas vezes a execução. Mas – e sempre tem um mas – principalmente no facebook existe um descompasso bem grande entre a vida real e a vida mostrada. Não pode ser que todo mundo ali seja tão feliz. Que as viagens sejam sempre maravilhosas. Que os filhos sejam todos perfeitos. Que os dias sejam tão lindos, cheios de flores, pôres de sol tão magníficos, amanheceres tão esplendorosos. Cadê as viagens que foram um fracasso? A vontade de voltar prá casa no segundo dia? Cadê os filhos com namoradas ou namorados que dão arrepio? Com amigos que você não queria nem que eles soubessem que existem? Cadê o dia depois da noite com intoxicação alimentar? Cadê as brigas por dinheiro? Cadê as/os amantes? As mentiras? As puxadas de tapête? As facadas nas costas? As fases ruins? Os momentos difíceis? A impressão que tenho é que a pessoa pode estar num buraco daqueles mas na hora de postar no facebook ela põe uma máscara e mente deslavadamente. Conheço gente daquele tipo que vive com a pedra na mão, bem paranóica; esses não aguentam o facebook, entram e saem. Não serve prá eles essa vida inventada, onde não existe o desgosto, o ataque, o dia cinza. Eu olho e leio o meu facebook, ponho tudo numa peneira e vejo o que passa. É que nem televisão, tem que consumir com olhar crítico. De vez em quando me distraio e me pego pensando que vida besta eu tenho, como a desse ou daquele é mais interessante. Mas logo caio em mim e sei que aquilo tudo é, como se falava antigamente, prá inglês ver.